segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Nesta data querida

A dois dias atrás, 25 de janeiro, foi o aniversário de São Paulo. 456 anos. Dia frio, com chuva. Feriado, estrada cheia. Segunda feira sem trabalho. Caos famíliar, caos nas ruas. Os punhos e os pulsos cortados. E era lá que eu estava, na escola ao lado do SESC Santana, encharcada pela chuva, pisoteada pela multidão, vizão tampada por guarda chuvas. Um aperto no peito. O pulso ainda pulsava. No palco, Charles Gavin com a mão enfaichada testando os possíveis sons que poderia tirar da bateria naquele estado. Apenas um pé no chão, o outro inchado, com um ferrão que não queria sair. Interrogação. Não era de plástico, já estava murchada. Sempre teve seus espinhos, mas ainda assim era uma flor. Prestes a despencar do galho. Se eu tivesse no seu lugar, já teria caido a tempos, não esperaria a total ausencia para fazer isso. Polícia para quem precisa. A polícia chegou, a impediu do corte. Todos fugiam do toque do telefone. Faltam quinze minutos para o show começar, anuncia Branco Mello. Falta uma vida inteira para ela desbrochar, anuncia minha mãe.


Vão se foder, porque aqui na face da Terra só bichos escrotos é que vai ter. Era ela. Não queria sair do esgoto. Não venha até aqui. O acaso vai te proteger, mas não se distraia. Pensão na rua Butantã. Nenhuma lágrima. Vingança. Errada, na hora errada. Miséria é miséria em qualquer canto. Material é o que não faltava. Mas ainda sim era miserável. Riquezas são diferentes. Era pobre. Não tinha lar, nem jantar nem era nobre. Precisava de um móvel apra enfeitar. Já testou vários mas nenhum lhe cabia bem. A faca já não estava mais em suas mãos.


Para onde foi? Eu não sei. Já saiu da nossa cabeça. Não está em casa. As portas estão trancadas. O pulso ainda pulsa.


Titãs. Bis. Gritos, alegria. Saldando São Paulo. Criticando suas autoridades. Chuva. O corpo ainda é pouco. Amor e ódio. A beleza da sua desgraça, a poesia do seu caos, a cegueira da sua elite, o racismo do seu farol, as balas voltadas para dentro, ta lá mais um corpo estendido no chão. Os vidros dos carros fechados. As balas vendidas por crianças. As balas vendidas pela polícia. As balas atiradas em crianças. As balas mastigadas pela polícia. São Paulo, terra da garoa. Chuva, trovão."Filho da puta, bandido, corrupto, ladrão." Já estava na grade, a poucos metros do microfone. São Paulo, chuva, Titãs, transito, preça, faca. Amor por inteiro. Apesar de. É São Paulo. Eu sei que é amor.


A dor vai fechar esses cortes. Os cortes dela, os cortes de São Paulo.

(feito no aniversário de São paulo, janeiro de 2010)

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